
A juíza Denise Apolinária tinha-nos feito o favor de tornar inelegíveis Rosinha Garotinho e Anthony Garotinho por três anos. Ontem, numa putaria total, o presidente do TRE, Marlan de Moraes Marinho, salvou os dois com seu voto de Minerva. Que sobre ele recaia a maldição que perseguiu Páris até Tróia por entregar o pomo de ouro à Afrodite.
Ouviu-se no carro do casal Garotinho, na saída do tribunal:
ROSINHA - Parabéns, amor.
GAROTINHO - (ao telefone) Manda depositar o dinheiro do Marlan. (desliga) Imagina se eu ia perder 2006!
ROSINHA - O Pudim foi um doce né, amor? Tão gentil da parte dele ficar inelegível no nosso lugar.
GAROTINHO - Ele também vai se livrar. É só um cala a boca. Deixa a poeira baixar que a gente salva ele com o benefício da dúvida.
ROSINHA - A dúvida é tão boazinha né? Também, que motivo mais besta pra gente inelegível! Foram só 318 mil reais.
GAROTINHO - Foi o que a Vera Lúcia disse. "Diante do mensalão, esse desfalque é uma quantia módica."
ROSINHA - Além do que, a gente distribuiu o dinheiro entre o povo, né amor? A gente não deu dinheiro pra nenhum político ladrão.
GAROTINHO - É, mas vamos ter que pagar multa mesmo assim.
ROSINHA - Ah, não!
GAROTINHO - Não deu pra evitar. São 100 mil reais.
ROSINHA - Pôxa... Ainda bem que o povo está do nosso lado.
GAROTINHO - É. Vou ver se eu falo com o pessoal da igreja pra cobrir esse desfalque. Mas de qualquer jeito a multa não é nem um terço do que a gente roubou.
ROSINHA - Amor, não fala assim. A gente não "roubou".
GAROTINHO - É. A gente só deixou pra bem pertinho da eleição a distribuição dos benefícios dos programas sociais. O problema é que se a gente distribui muito antes, na hora da eleição eles esquecem de quem veio o presente.
ROSINHA - Nào é presente amor, é benefício.
GAROTINHO - De qualquer jeito, não é culpa minha se o povo tem memória curta!
ROSINHA - Falando nisso até a eleição pra presidente eles já esqueceram essa história de compra de votos, né?
GAROTINHO - Com fé em Deus!
ROSINHA - Amém.
Escrito por Manuela Dias às 08h57
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Só ontem fui ver o filme de Marcelo Gomes, "Cinema, aspirinas e urubus". A tela começa completamente branca. O diafragma se fecha para abrir passagem para a história de Johan e Ranulfo. O alemão usa o cinema para vender aspirinas pelo sertão dos urubus. Brasil, Segunda Grande Guerra. É um filme-jóia, artesanal. Os tempos, às vezes longos, não são vazios. São respirações. O filme dá tempo para o filme acontecer. Cheguei no cinema levemente hiperventilada (às vezes minha ansiedade me transforma em um 7.500 BTUs). Quando o diafragma encontra sua abertura inicial o público já não quer saída. Os diálogos são certeiros e disparam a cabeça da gente. Mais sertão, mais ser tão... e lá vai o alemão! O alemão tem uma paixão pelo detalhe do povo que deixa a gente apaixonado. O cabra acha tudo interessante! O Ranulfo brasileiro quer progredir, quer dirigir o caminhão. Mas o filme não é "tapioca com queijo coalho" - suas qualidades são universais. Os personagens decidem sobre seus futuros, fazem opções onde não parecia haver nenhuma escolha. No final, o diafragma se abre e a tela fica branca. Todo mundo queria saber mais. Saí do Odeon apontando para o futuro, feliz de que seja possível fazer um filme desse. Feliz pelos amigos, pelo público, pelo cinema.
"Cinema, Aspirinas e urubus" é o melhor filme brasileiro do ano. Imperdível.
Escrito por Manuela Dias às 18h28
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